Em Las Meninas, Velázquez pinta o próprio ato de pintar — e coloca o espectador no lugar do rei. Uma meditação sobre o olhar, a imagem e a constituição do sujeito a partir do que o vê.
Las Meninas, de 1656, é talvez o quadro mais comentado da história — e não por acaso a psicanálise se demora nele. Velázquez se autorretrata diante de uma tela que não vemos; ao fundo, um espelho devolve a imagem do casal real, que está no lugar de quem olha o quadro. Somos, ao mirá-lo, postos no ponto de onde o quadro foi visto.
Lacan situou no estádio do espelho o momento em que a criança se reconhece numa imagem que a antecede e a captura: o eu nasce alienado, fora de si, na forma do outro. O espelho de Velázquez encena essa torção — a imagem que nos constitui é a imagem de um lugar que ocupamos sem coincidir com ele.
A pintura não representa apenas uma cena: ela representa o olhar como tal, esse ponto cego de onde somos vistos e que nunca podemos ver. Por isso o quadro nos olha. E é nesse ser-olhado, anterior a todo ver, que a psicanálise reconhece a marca do desejo do Outro na origem do sujeito.
Temas
- arte
- olhar
- estádio do espelho
- imagem

