Há filmes que pensam onde a teoria ainda hesita. Em Persona, Gritos e Sussurros e Sonata de Outono, Bergman elabora cinematograficamente a alteridade, a identificação imaginária e o lugar do feminino.
Em Bergman, o rosto é tela e é enigma. Persona, de 1966, leva ao limite a questão da identificação: a atriz que emudece e a enfermeira que fala terminam por trocar de máscara, e o espectador já não sabe a quem pertence a voz. Lacan diria que o eu é, desde sempre, o outro — e o cinema de Bergman faz disso uma experiência sensível, não um argumento.
O silêncio, no diretor sueco, não é ausência de fala: é o ponto em que a fala encontra seu real. Gritos e Sussurros encena a morte e o corpo das mulheres num vermelho que satura o quadro, como se a tela quisesse dizer aquilo que não se diz. A imagem se faz lugar do que insiste para além do sentido.
Ler Bergman pela psicanálise não é aplicar conceitos a um filme, mas deixar que o filme reabra as questões da clínica: o desejo que se sustenta na falta, a máscara que não esconde um rosto verdadeiro, e o feminino como aquilo que não se deixa todo capturar pela imagem. O cinema, aqui, é via de transmissão.
Temas
- cinema
- desejo
- feminino
- imagem

